11.15.2011

Dossier "Maçonaria" do Diário de Notícias

Interessante o dossier DN "Maçonaria" de sábado, domingo e segunda que faz uma curiosa viajem ao mundo da Maçonaria. Do ponto de vista contextual a descrição que é feita é precisa, sem grandes erros, sendo notória a preocupação de "revelar", "descobrir" nomes e acontecimentos relacionados com as duas principais Obediências portuguesas: a Grande Loja Legal de Portugal e o Grande Oriente Lusitano. Em termos de coerência o melhor compósito é o de sábado, o pior o de domingo, razoável o de segunda-feira. O jornalista Rui Pedro Antunes fez um muito razoável trabalho de investigação e traça, para um profano, um cenário consistente do que é a Augusta Ordem e o que são as Obediências. Provavelmente como resulta do "jornalismo de investigação" dá à Maçonaria uma influência, uma premeditação, um conciábulo que não existe (ou pelo menos não se connhece). As duas Obediências ficam bem no retrato, sendo claro por outro lado que Fernando Lima, o Grão-Mestre do GOL, está ainda a "agarrar" o lugar, já que é António Reis a fazer, quase no exclusivo, as "despesas da conversa". Pelo lado da GLLP, José Manuel Anes e José Moreno dividem as intervenções e os comentários. Seria interessante conhecer depoimentos dos ex-Grão-Mestres (da GLLP) ainda vivos mas provavelmente escusaram-se a fazer comentários.
Não sei qual a opinião dos Irmãos mas a Maçonaria sai prestigiada do dossier; as pessoas interessam-se por quem tem influência e o pó de "coscuvilhice" explorado pelo jornal é decisivo para aguçar a curiosidade de quem vê de fora. Haverá seguramente quem sai com a opinião que tudo isto é misterioso e pernicioso para a democracia mas como ali se diz pela boca do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, quanto ao argumento que os magistrados deveriam identificar a sua condição de Maçons por causa do requisito da independência, tudo passa pela consciência do indivíduo em causa. Não é por ser Maçom que coloca em risco o seu julgamento, preferindo uma das partes porque é Maçom ou protegida por Maçom. O mundo não funciona assim. Sobre quem olha a Maçonaria como palco para tráfico de influências, essa pecha sempre acompanhou a Ordem nos seus 300 anos de existência. O tráfico de influências existe sempre onde há "interesses" e ambições em confronto (logo humanos) porque elas entram num jogo de soma positiva: uns ganham para outros perderem.
A Maçonaria não será diferente nesse particular da Opus Dei, dos clubes desportivos, das corporações, das associações civis, etc. A peça de segunda-feira é pouco equilibrada e retrata uma Maçonaria ainda anticlerical que é apenas a face de uma das Obediências. Passa de lado o facto de não obstante a posição institucional do actual Papa existirem boas relações entre a Maçonaria e as instituições da Igreja, em Portugal. As missões completam-se e não sendo a Maçonaria nem uma Igreja, nem um culto há lugar para homens de todas as fés inclusive sem uma fé institucionalizada. As duas instituições fazem parte da sociedade civil e têm um papel na exteriorização da opinião da sociedade civil. Acarência de uma dimensão espiritual na sociedade dos nossos dias aproxima as duas instituições.